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FAUSTO    WOLFF ... em  10  de  abril  de  2004,

por especial colaboração de Valacir Marques Gonçalves     www.valacir.com

Redi

A   morte   do  Rouxinol

No sábado em que Redi morreu vi a luz vermelha piscando ao lado do aviso new message. Apertei o botão e ouvi a voz do meu velho amigo de 42 anos: “Fausto, Mônica. Estou telefonando para dizer que cheguei de Nova York há alguns dias e quero saber como estou passando”. Em seguida deu uma série de telefonemas onde poderia ser encontrado nas mais diversas horas. Ele às vezes ligava de madrugada para saber como ele estava indo. Só fazia isso quando a angustia se transformava em dor física e precisava ouvir a voz de alguém que realmente lhe queria bem e ele tivesse certeza disso.

Não telefonei para o Redi e esqueci de informar minha mulher. Em primeiro lugar, se marcasse alguma coisa comigo e eu fosse ao se encontro, ele se limitaria a olhar com seus doloridos olhos azuis que contrastavam com o sorriso que treinara para os lábios, esperando que eu decifrasse o que se passava em sua alma. Se eu perguntasse como ele ia diria a palavra que julgava funcionar para quase todas as ocasiões: “Maravilha”. Eu contaria piadas, esculhambaria alguns patifes, relembraria o tempo em que trabalhamos  numa grande agência de publicidade, eu com 20 e ele com 21 anos, mas Redi não ouviria. Estaria com medo de não achar a palavra certa para me dizer. Estaria com medo de mim que o amava tanto. Então sorriria o sorriso treinado no espelho e diria “Maravilha”, as lágrimas empurradas pela dor sempre prontas a caírem sobre a toalha e se misturarem com o excesso de pressão do meu chope.

Se pelo menos ele bebesse, mas Redi não bebia, não fumava, não cheirava e nem dizia palavrão. Jamais praticou uma contravenção na vida e sofreu na mão de todos os contraventores, esses bandidos e bandidas que odeiam a beleza, a harmonia, o poema.

De repente, Redi inventaria outro encontro importantíssimo. Eu lhe daria um forte abraço, uns tapinhas na barrigona que não respeitava suas mais diversas dietas. Redi nunca estava no lugar que estava porque não havia um lugar para ele na terra. Tive outra razão para esquecer o telefonema do meu belo amigo: no sábado em que ele morreu, minha filha que mora em São Paulo e que eu não via há quase um ano viria passar o fim de semana comigo e eu queria preparar um deslumbrante fim de semana para ela, pois é uma das poucas pessoas que amo mais do que ao Redi.

Quando ela voltou para São Paulo ao cair da tarde de domingo deitei-me no sofá e me dei conta que estava quase feliz. Digo quase porque a felicidade em sua totalidade essencial talvez não seja coisa para nós, seres que nos autoproclamamos humanos. O telefone tocou, minha mulher, ao meu lado, atendeu. A palidez do seu rosto transformara-se aos meus olhos num cruel anúncio de gás néon: Morte! Morte!Redi morrera no dia anterior e eu me culpava pela sua morte; a notícia saíra nos jornais, mas eu decidira não ler os jornais naquele fim de semana, pois a realidade da forma mentirosa e fria como é apresentada na imprensa também me machuca muito.

E eu não queria que nada estragasse o fim de semana com a minha filha. Pensei: “É bom mesmo que você não exista, Deus, porque se você existe é um assassino cruel, um sádico desgraçado que matou um passarinho cuja única função no mundo era distribuir alegria e beleza e que só recebeu pedradas feitas de incompreensão e intolerância”.

Corri à minha escrivaninha onde fica o telefone com a secretária eletrônica e apertei o botão sobre o qual piscava a luzinha vermelha. “Oi, Fausto, Mônica, não se preocupem que já voltei para casa. Maravilha”.

Quando Redi nasceu, seu pai que era muito parecido com o pai de Kafka, um homem forte, prático e realista, viu imediatamente que seu filho era diferente: era dócil, meigo, bom, sempre disposto a ajudar. Redi queria ser amado e seu pai queria que ele fosse um homem forte, prático e realista. Como os patinhos medíocres, não entendia que ele era diferente, que ele era um cisne e meu pai nunca me deu um tapa. Preferia ganchos, diretos e jabs”.

Quando Redi me contava, eu ria por fora e chorava por dentro como ele. Na medida em que crescia num mundo que não entendia e não o entendia, Redi foi elaborando um mapa de palavras para se defender mas o que pode fazer um único rouxinol contra tantas serpentes? Mesmo não entendendo o nosso mundo e as porradas cotidianas que o nosso mundo lhe dava, Redi queria fazer parte do mundo, queria ter muitos amigos, sofria brutalmente com a rejeição. Decidiu ser humorista, fazer as pessoas rirem, pois anotara em seu mapa: “As pessoas que faço rir não me agridem”.

Existem animais geneticamente preparados para atacar e outros para se defender.Redi não sabia o que era ataque. E nem sabia como se defender. Quando descobriram quando ela era bom, vulnerável e tinha um frágil coração feito de lã, gente que gosta de rasgar asas de borboletas atacavam com seus chifres sangrentos.

E não adiantava nada, pois Redi sorria quando o mundo lhe batia, pois achava que era isso que as pessoas queriam. Era um judeu e cristão, pois sempre dava a outra face embora soubesse que lhe bateriam outra vez. “Talvez com menos força”, pensava. Foi um grande artista admirado por grandes artistas: Ziraldo, Zélio, Jaguar, Millôr, Cláudius, Nani, os irmãos Caruso e toda a nova geração, mas se eles entendiam a arte não entendiam o homem que fazia a arte porque ele não saía nunca dos 18 anos e vivia se espantando com a maldade desumana que impera neste mundo.

Redi era um peixe que queria aprender a respirar com as guelras que não tinha ou um homem ao qual condenaram a viver abaixo d’água, o que lhe dificultava muito a vida.

Briguei com todos os patifes que o enganaram, que não valorizaram seu trabalho, que não compreendiam que portas, janelas, maçanetas, cadeiras, guardas de trânsito, marginais dos mais variados portes acabavam por machucá-lo, pois sabiam que ele era um estrangeiro, uma criança perdida na tempestade procurando encontrar o caminho de casa. De todos os grandes artistas que citei foi o único a ter seus trabalhos publicados na primeira página do New York Times lá poderia ter ficado em paz – escrevendo seus belos textos e desenhando seus meigos cartuns numa casa de subúrbio com sua mulher, tendo apenas de ir ao banco para, depois de alguns mal-entendidos, receber seu salário.

Poderia, mas um moço que gosta de mostrar a bunda no Municipal, um moço pomposo e arrogante, um chato alienado que acha que tédio é arte, começou uma campanha de calúnias e intrigas tão convincentes na redação que o maior jornal do mundo não mais chamou meu amigo Redi para colaborar. E ele nunca disse nada contra este moço e nem contra ninguém. Ele queria ser aprovado, passar de ano e provar ao pai como era forte, prático e realista.

Às três horas da manhã de segunda-feira, dia 16 de fevereiro, acordei, como fazem os velhos, para tirar água-do-joelho. Vi que a luz estava acesa na sala e fui apagá-la. Antes, porém, notei Deus sentado, meio de lado, num sofá. Era careca, tinha um sorriso parecido com o do Paul Newman nos lábios, uma idade indefinível entre os 70 e os 80 anos. Bebia um uísque e serviu-me uma dose: “O negócio é o seguinte-disse-me-ele. – O Redi fugiu da minha casa. Ele nunca teve nada a ver com a terra ou com vocês.O que as outras crianças aprendem naturalmente, ele tinha que decodificar, descobrir o que era perigoso do que era inofensivo.

Seu trabalho deveria ser o de criar novas árvores, sugerir nomes às estrelas, colocar a ternura nos corações desumanos. Os deuses também erram, pois no lugar do Redi deveria ter nascido um banqueiro. Quando descobri o meu erro pensei em chamá-lo de volta para casa, mas ele queria tanto ser como vocês, ele amava tanto vocês que decidi deixá-lo ir ficando.

Não se preocupe que agora ele está entre gente que o ama. Aliás, estou seriamente inclinado a tomar uma atitude em relação a um mundo que é incapaz de amar uma criatura celeste como o Redi.

Não pude deixar de concordar com ele. Deus se despediu de mim e assim que desceu o elevador, corri para a secretária eletrônica e apertei novamente o botão sob a luz vermelha e ouvi novamente a voz do Redi: “Mônica, Fausto, não se preocupem que eu já voltei para casa. Maravilha”.

Pela primeira vez o “maravilha” me soou autêntico. Tenho certeza que depois de passar algum tempo como passarinho, Silvio Redinger vai, finalmente, ganhar suas asas de anjo.

 

 

 

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